Às vezes o medo nem é do aparelho. É de sentar na cadeira para uma avaliação e ouvir “vamos precisar tirar dois dentes”. Tem gente que adia anos por causa dessa frase, sem nunca ter ouvido se ela se aplica ao próprio caso.
Primeiro, a pergunta certa: é uma questão de espaço
Dente torto ou apinhado quase sempre é dente sem lugar. A arcada é uma curva de tamanho limitado, e quando a soma da largura dos dentes é maior do que essa curva, eles se sobrepõem, giram ou saem da linha. Alinhar significa colocar todos lado a lado, e para isso o espaço tem de vir de algum lugar.
A extração é uma das respostas para essa conta. Não é a única, e na maioria dos casos não é a primeira.
De onde mais pode vir o espaço
- Alargar a arcada. Em muitos casos a curva onde os dentes ficam pode ser levemente expandida, ganhando espaço sem tirar nada
- Desgastar frações de milímetro entre os dentes. É um polimento controlado nas laterais de alguns dentes, dentro da camada de esmalte, feito com planejamento. Somado em vários pontos, abre um espaço que não se vê no sorriso
- Recuar os dentes de trás. Os molares podem ser levados um pouco para trás, abrindo espaço à frente
- Corrigir a inclinação. Às vezes os dentes da frente estão inclinados de um jeito que “gasta” espaço, e endireitá-los devolve parte dele
Quase sempre o plano combina mais de um desses recursos, e a proporção de cada um é o que o planejamento decide.
Quando a extração ainda faz sentido
Existem casos em que ela é o caminho mais indicado, e é importante saber disso para que a recomendação não soe como descuido:
- Quando a falta de espaço é grande demais para ser resolvida só com os outros recursos
- Quando empurrar os dentes para frente para abrir espaço deixaria os lábios projetados, com impacto no perfil
- Quando a relação entre a arcada de cima e a de baixo pede essa compensação
- Quando algum dente já está comprometido e, entre tirar esse ou um dente saudável, a escolha óbvia é o que já tem problema
Nesses casos, evitar a extração a qualquer custo pode produzir um resultado pior: dentes alinhados, mas empurrados para uma posição instável ou que muda a face de um jeito que a pessoa não esperava.
E o siso?
É uma pergunta separada. A indicação de tirar o dente do siso costuma vir por outros motivos, como falta de espaço para ele nascer, inflamação ou posição inclinada, e é avaliada junto com as radiografias. Nem todo tratamento ortodôntico envolve o siso, e nem toda extração de siso tem a ver com o aparelho.
“Já tirei dois dentes na adolescência. E agora?”
É uma situação comum entre adultos que voltam ao ortodontista porque os dentes voltaram a entortar. A extração feita no passado não impede um novo tratamento, e em geral não significa que será preciso tirar outro dente. O espaço daquela época já foi usado, e a correção de agora costuma ser menor, resolvida com os outros recursos. A idade também não é o obstáculo que muita gente imagina.
Alinhador e extração
Dá para tratar com alinhador um caso que envolve extração, mas é um planejamento mais exigente, porque o espaço deixado pelo dente precisa ser fechado de forma controlada. Em alguns desses casos o aparelho fixo é a opção mais previsível, e essa é uma das coisas que o exame define, não a preferência.
O que perguntar antes de aceitar
Se a indicação de extração aparecer, você tem todo o direito de entendê-la inteira:
- Por que a extração, e não os outros recursos para ganhar espaço?
- O que aconteceria com o resultado se eu não extraísse?
- Qual dente, e por que esse?
- Como fica o perfil do rosto com e sem a extração?
Um planejamento digital ajuda muito aqui: dá para ver o movimento planejado e entender de onde está vindo o espaço antes de decidir qualquer coisa.
Se esse medo é o que está te fazendo adiar, uma avaliação responde a pergunta para o seu caso. Na maioria das vezes, a resposta é mais tranquila do que a expectativa.
“Extrair é uma forma de ganhar espaço. Não é a única, e quase nunca é a primeira.”
